Educação ambiental: atividade pontual ou holística?

Por Joaquim Moura

Prezados amigos e amigas,

Vou escrever minhas impressões sobre a reunião de Educação Ambiental ocorrida em 18 de agosto de 2010, no Lote 10, para aprofundar a discussão e aproveitar ao máximo a oportunidade inédita que se apresenta. Serei bem resumido, e acredito que só teríamos a ganhar se mais pessoas expressassem melhor, por escrito, suas considerações, já que nas reuniões, falando, não há tempo para tanto.

Houve muitos aspectos positivos na reunião, mas vou começar comentando os mais problemáticos, que exigem mais a nossa atenção. OBS.: Não compartilho da opinião de que não devemos discutir os erros passados, e só pensar "positivamente" e "daqui pra frente". Aprendi muito cedo que, se queremos que algo dê certo, precisamos focar no que pode dar errado; e sempre aprender analisando os erros passados (em vez de negligenciá-los).

Ponto 1. Não tivemos tempo para expor de modo estruturado as nossas ideias e propostas. Como havia muitas pessoas na reunião, muito tempo foi dedicado a falas diversas, algumas um pouco fora de hora etc. Realmente, não se pode aprofundar nada em falas de 1 a 1,5 minuto, perdidas entre outras até mais longas porém algo fora de foco. Mas talvez fosse mesmo a hora de ouvir primeiro o que a equipe do INEA tinha a propor, do que apresentar as nossas propostas. Mas gostaríamos de ter abordado alguns temas, resultado de algumas reuniões prévias de lideranças locais, se bem que isso pode perfeitamente ficar para a próxima reunião. São eles:

  1. disponibilizar para todos os presentes os documentos e projetos etc. ligados à Educação Ambiental que já foram desenvolvidos ultimamente na região, incluindo a "lista de impactos levantados na oficina PUC/Petrobras/Amar", as "diretrizes do Conselho Gestor", os "requisitos da Mauatur", as "recomendações do Encontro de Educação Ambiental nas Escolas", o "projeto de gestão dos resíduos sólidos" que o CG encaminhou à SEA/Fecam em 2008, um "projeto alternativo - Plano B" de gestão dos resíduos sólidos (com ênfase nos recursos locais), o projeto de "apoio aos catadores de recicláveis em Itatiaia", os projetos incluídos no "buquê de projetos" ao qual a Pólita se referiu, etc. E vamos reunir esses documentos etc. em uma página no portal do Conselho Gestor, para todos poderem conhecê-los.
  2. Oferecer para análise e - se fosse o caso - aprovação, três eixos de atuação indispensáveis, em torno de cada qual será organizado um grupo de trabalho para aprofundar sua proposta, planejar e executar ações etc. Esses eixos são: (a) educação ambiental (sentido amplo) nas escolas, com foco especial e prioritáio nos jovens do CEAQ; (b) um projeto de gestão de resíduos sólidos ampliado e sustentável; e (c) "educomunicação" com a comunidade em geral. Em torno desses três eixos, inúmeras ações e eixos secundários podem ser agregados na continuação. Um deles, especialmente, tratará da "educação urbanística", voltado para o envolvimento das comunidades na implementação efetiva e "sem dor" dos planos-diretores e outras normas visando salvaguardar a região da degradação, favelização etc. Outro sub-eixo certamente é relativo ao manejo ecológico de pequenas propriedades rurais, dentro da legislação ambiental, princípios de permacultura etc.
     
  3. Marcar a data do seminário sobre os impactos positivos e negativos e como "otimizar os primeiros e mitigar os segundos". Essa é uma ação de educação ambiental prioritária para que a população, os órgãos públicos, as associações, as ONGs, os turistas, os empresários, os jovens, disponham de uma visão construída, consolidada e validada em conjunto (a comunidade, o governo, a academia) do que nos aguarda e do que precisamos fazer para adaptar a região às mudanças em andamento.

Porém como não conseguimos pôr em pauta, organizadamente, esses três pontos, preferi transcrevê-los acima.  A reunião voltou-se mais (e foi muito justo) para a apresentação do plano de educação ambiental que a equipe do INEA irá implementar, conforme sua experiência, programas em andamento e procedimentos-padrão. Certamente os conteúdos que a equipe do INEA trará são de extrema importância, mas precisam ser integrados de modo eficaz à nossa realidade e necessidades, com uma perspectiva de longo prazo. Por exemplo: ficou claro que o modelo de reciclagem que a equipe propõe - basta ver o folheto institucional distribuído sobre o tema - não contempla jamais a reciclagem dos resíduos orgânicos por meio da compostagem local e descentralizada (com separação na fonte), hoje uma prioridade mundial na busca da sustentabilidade das cidades e agora também uma recomendação expressa aos serviços públicos municipais incluída na nova Lei de Gestão dos Resíduos Sólidos brasileira, recentemente aprovada. Quando a equipe do INEA falava de reciclagem e coleta seletiva, restringia-se sempre aos resíduos inorgânicos de origem industrial, esquecendo que aqui é uma região rural, e com vocação agrícola potencializada pelo consumo dos turistas que aqui vêm comer toda semana.

Obs.: Para quem vive em ambiente urbano, é difícil perceber o valor do lixo orgânico e imaginar sua importância agrícola e nutricional e sua importância para a biodiversidade e para a sustentabilidade. Vivendo em um ambiente totalmente industrializado (com exceção do ar e da água, do céu e das nuvens - mesmo assim poluídos), é difícil para os habitantes das grandes cidades não priorizarem, em suas preocupações de reciclagem, os resíduos industrializados, negligenciando os orgânicos, que veem como mera sujeira a ser jogada "fora". Sua tendência é se identificar com os materiais que os cercam: plástico, papel, metal e vidro. Propomos a gestão ambientalmente sustentável dos resíduos orgânicos urbanos integrada à produção sustentável de fertilizantes biológicos e alimentos saudáveis para as populações das cidades, proposta esta ainda mais urgente diante da iminente crise na oferta de nutrientes de origem fóssil e mineral, prestes a se esgotarem ou terem seus preços explodidos inapelavelmente. (Me alonguei nessa reflexão para evitarmos que se repita a divergência ocorrida em 2007/2008.)

Ponto 2. A equipe do INEA também tinha seus próprios eixos, todos eles muito válidos, mas com outra perspectiva (o que é natural): 

  1. Educação ambiental e saneamento
  2. Educação ambiental e coleta seletiva/gestão dos resíduos sólidos
  3. Educação ambiental para os operários da estrada
  4. Educação ambiental para os turistas

Talvez houvesse mais um ou dois eixos no plano do INEA. Não lembro se "educação ambiental nas escolas" é um deles, ou se essa frente de ação está incluída nos dois primeiros eixos (saneamento e coleta seletiva) acima.
É evidente que o eixo 1 do INEA é fundamental, e sua equipe sabe muito bem qual o conteúdo indispensável que deve ser transmitido à população com relação aos cuidados que os moradores devem ter para não prejudicar a operação das ETEs. Mesmo assim, gostaríamos de conhecer o plano a tempo para poder colaborar para o seu sucesso, por exemplo, obtendo e divulgando informações de grande interesse sobre as ETEs, incluindo o sistema de digestão do excreta que elas empregam (um diagrama sinóptico do processo); o mapa da rede coletora de cada uma das ETEs; qual a sua capacidade máxima; qual a porcentagem dos domicílios e negócios atendidos; quais os seus efluentes e qual a destinação de cada um deles (visando o seu reaproveitamento agrícola, dentro do moderno paradigma do "saneamento ecológico produtivo"); resultados das análises da água do Rio Preto nos pontos críticos (conforme prometido há meses pela Seobras); quais os níveis de qualidade da água previstos para depois da entrada em operação das ETEs; etc. Sem essas informações claramente divulgadas, tornadas de conhecimento comum, será difícil levar a população a zelar pelo sistema de saneamento "como se fosse seu".

O eixo 2, sobre coleta seletiva e reciclagem, já comentei mais acima.

Os eixos 3 e 4 do INEA são importantes, porém nossa prioridade é colaborar para uma transformação cultural no seio de nós mesmos, daí os três eixos acima.

Ponto 3. Como vimos, as divergências entre o que vem sendo discutido na comunidade e as propostas do INEA são poucas e pequenas, porém importantes. Acredito que a causa delas é uma diferença de perspectiva: o INEA traz um programa mais voltado para aspectos pontuais, ligados a exigências inescapáveis e impactos imediatos. Já nós - é diferente - desejamos aproveitar a oportunidade para desenvolver um programa de educação ambiental sistêmico, cultural, holístico, com efeito urgente, crescente e irreversível a longo prazo, que possa alterar definitivamente a percepção da população - principalmente da juventude - sobre as questões socioambientais que iremos/irão enfrentar crescentemente, exponenciadas ainda mais pelo acesso facilitado. Por isso este nosso foco enfático nos estudantes e na educomunicação, ênfase inexistente na "arquitetura" do projeto de educação ambiental do INEA.

Obs.: Essa diferença de perspectiva se deve aos interesses diferenciados entre os órgãos públicos e a comunidade. Para resumir: os órgãos públicos (como toda grande organização) tipicamente resistem à inovação; já a evolução das comunidades depende dela...  É preciso evitar que as razões e limitações institucionais sobrepujem as reais necessidades e condições que a comunidade enfrenta, como ocorreu com o projeto do lixo elaborado em 2007/2008, e - mais recentemente - em um projeto parecido, de apoio aos catadores de recicláveis da cidade-sede do município de Itatiaia. A experiência internacional em projetos de desenvolvimento socioambiental nos alerta para evitar a tendência das equipes dos órgãos públicos a defenderem suas práticas, sua cultura, seus prazos e custos (e até as prioridades político-eleitorais dos governantes da ocasião), mesmo que em prejuizo do resultado prático dos projetos para as populações-alvo.

Outro ponto levantado referiu-se à nossa proposta de usarmos, em projetos de educação ambiental de impacto profundo (planejados em conjunto com o INEA), uma parte daqueles um milhão e cem mil reais previstos para serem gastos na implementação do PBA (hoje muito defasado e cada vez mais despropositado). Infelizmente a proposta foi considerada "impossível", em outra evidência da dificuldade que tem a comunidade para fazer prevalecer seus interesses e necessidades sobre as "razões institucionais" do poder público.

Ponto 4. Ao final da reunião, duas noticias alvissareiras: a equipe do INEA ficou de identificar um local para servir de "centro de educomunicação e participação comunitária" e ficou marcada uma próxima reunião (dia 17 de setembro - a partir de 09h00 até o fim da tarde) para tratar de (1) planejamento das oficinas de coleta seletiva e reciclagem; e (2) "buquê de projetos".

Ponto 5. Acredito que devemos criar urgentemente uma estrutura de comunicação reunindo os interessados no programa de educação ambiental. Quem quer ajudar a criar nossa rede? Quem gostaria de atuar no eixo da "educomunicação comunitária"? Quem ficou com a lista de presença da reunião? É importante que todos tenham acesso a ela, para facilitar a troca de ideias.

No mais é agradecer novamente à equipe do INEA e ao Firmino pela oportunidade que teremos de formular um programa de educação ambiental à altura da região de Visconde de Mauá, de seu pioneirismo na história da consciência ecológica no Brasil, da fragilidade de suas belezas naturais e dos desafios socioambientais que a pavimentação do acesso representa.   

Cordialmente,

Joaquim Moura (por favor, se for o caso, nos envie também os seus comentários)