Visconde de Mauá, 18 de Maio de 2012         

Relato da Apresentação sobre o Programa de Monitoramento da Fauna do PBA da RJ-163

 

Texto de Marcelo Brito                     

Imagens de slides copiados da apresentação

"Estrada-parque: minimizando o efeito-retalho"

de autoria do Prof. Maron Galliez, PhD

 

A equipe de acompanhamento do PBA da UERJ está realizando um ciclo de apresentações dos resultados obtidos de cada um dos programas exigidos pelo Plano Básico Ambiental da Estrada-Parque. No dia 12 de maio, ocorreu a terceira apresentação, relacionada ao Programa de Monitoramento da Fauna. Este relato diz respeito somente à apresentação.

 

 

A apresentação foi feita pelo Prof. Maron Galliez, um dos coordenadores do programa e posso afirmar sem medo de cometer injustiça que, o Prof. Maron mostrou ser, longe, o palestrante mais bem preparado dentre todos que tenho visto nesses últimos três anos de acompanhamento de reuniões sobre o projeto e execução da estrada-parque.

 

O Prof. Maron, conduziu toda a sua apresentação utilizando-se dos mesmos recursos técnicos de todos os demais engenheiros, arquitetos, técnicos, educadores e demais representantes do governo, que aqui já estiveram: um laptop, um data show e o programa PowerPoint. O que tornou sua apresentação, especial em comparação com as demais é que ele utilizou-se das ferramentas para completar as informações que ele passava a sua platéia. Ao contrário dos demais que normalmente ficam somente lendo para a platéia o texto já mostrado no slide.

 

Na abertura de sua apresentação, o Professor Maron explicou que o Sr. Ronaldo Gueraldi pediu-lhe que expandisse um pouco mais o escopo de sua apresentação e comentasse o impacto das estradas não só sobre a nossa região (no caso da estrada-parque), como também falasse dos impactos ocorridos globalmente em todo o nosso planeta.

 

O Professor Maron Galliez fez a apresentação

Quadro comparativo de impacto de diversas rodovias no Brasil

 

 

O Professor explicou que embora as estradas ocupem somente de 1 a 2 % da superfície terrestre o impacto provocado por elas se propaga de maneira a atingir de 15 a 20% , dessa superfície. Em termos de fauna o impacto mais visível - embora não seja o mais grave - de uma estrada, é o atropelamento de animais. Ele explica que isso se deve ao fato de que a taxa de atropelamentos nunca é tão grande a ponto de afetar a população de espécies nas redondezas da estrada.

 

A estrada foi monitorada diariamente durante os 10 primeiros meses do ano passado e foram encontrados um total de 29 atropelamentos de animais silvestres.

 

O professor explicou que muito provavelmente o gambá mostrou-se ser a vítima mais comum de atropelamentos de fauna na região, por já ser uma fauna adaptada à áreas degradas do entorno da estrada. Ele explicou que pelas características de ruído de uma estrada, a fauna natural já evita aproximar-se dela.

 

Esse último comentário do professor já resultou na primeira pergunta do dia: se a quantidade de ruído provocado pelas obras (maquinário e explosões), durante o levantamento dos dados apresentados, não afugentaria a fauna de uma forma mais intensa, introduzindo assim um possível grau de erro no estudo. O professor admitiu que, com o final das obras, e a diminuição dos ruídos provocados por ela, é possível que os animais se aproximem mais da estrada, o que poderia provocar um aumento no número de atropelamentos.

 

Ele mostrou que não houve registro de atropelamento de espécimes considerados em risco na região e afirmou que a maior média de atropelamentos registrada foi justamente no lado da serra que não dispõe de zoopassagens, ou seja o trecho entre as antenas e a vila de Mauá.

 

O efeito mais grave da introdução de uma estrada sobre a fauna,  seria o de criação de um efeito de barreira, fazendo com que animais de uma margem da estrada não se “comuniquem” com outros de sua espécie, situados do outro lado da estrada. Esse efeito barreira influencia na reprodução das espécies e não é gerado unicamente pela introdução de uma estrada. Esse efeito pode ocorrer todas as vezes que, através de uma interferência humana, árvores são derrubadas ou, o mato é capinado, para criação de áreas de habitação, pasto, lavoura ou lazer.

 

 

Registro dos 29 espécimes encontrados atropelados na RJ163 durante o período de 10 meses de observações. A freqüência dos espécimes identifcados utilizando a zoopassagem subterrânea. A jaguatirica foi uma agradável surpresa por ser um predador de grande porte capaz de conter uma superlotação de outros espécimes. Enquanto que a paca e a cotia são considerados importantes para a propagação de espécimes florestais

 

 

Como já descrito, o efeito barreira pode provocar uma fragmentação da fauna, dificultando reprodução das espécies e facilitando o seu extermínio, pois reduz a área de escape dos animais, deixando-os mais susceptíveis a predadores naturais ou, em alguns casos, caçadores humanos.

 

Foi explicado o fenômeno de uma Floresta Vazia; que é uma floresta sem vida animal. A mesma vida animal que muitas vezes é responsável pela propagação da vida vegetal, através do depósito de sementes por meio de excreção. Uma Floresta Vazia  tende a se transformar em uma floresta morta.

 

Os efeitos da defaunação de uma floresta pode explicar o súbito aumento nos números de uma única espécie. Foi utilizado o exemplo do gambá aqui na região. O número de gambás pode estar expandindo devido à ausência de algum predador natural de sua espécie, talvez onças ou jaguatiricas.

 

Foram mostradas imagens capturadas de animais fazendo uso das zoopassagens, demonstrando assim a adaptação de certas espécies a esse novo ambiente.

 

Ao mencionar espécies introduzidas, ou seja, que não são naturais da região mas foram trazidas para cá, o Professor Maron enfatizou muito a introdução da truta em nossos rios, definindo-as como sendo uma praga que traz muitos mais danos ambientais à região do que a introdução de uma estrada.

 

As técnicas utilizadas para a minimização dos impactos de estradas sobre a fauna e flora são a criação de Reservas (áreas de pesquisa), Parques (áreas de lazer) e Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). Mas não basta criar áreas protegidas, é preciso saber como criar essa área protegida. É muito melhor ter uma área protegida grande do que diversas pequenas. É melhor que as áreas sejam criadas próximas umas as outras, do que afastadas. É melhor tê-las agrupadas do que alinhadas. Tudo isso, justamente para facilitar a circulação dos animais. É preferível que essas áreas tenham formatos arredondados, ao invés de longilíneos, para que haja uma área maior de  interior de floresta.

 

Outras técnicas são corredores ecológicos e zoopassagens. Um dado negativo encontrado nos estudos das zoopassagens subterrâneas da RJ-163 foram vestígios de passagem de humanos, cães e gatos domésticos. Esses indicadores atrapalham o processo de adaptação da fauna silvestre à utilização dessas zoopassagens.

 

No gráfico acima (de A - F) a coluna da esquerda mostra a melhor forma de se compor áreas de proteção, enquanto a coluna da direita mostra as formas desaconselháveis. Diferentes opções de zoopassagens encontradas undo afora. Destaque para a imagem superior da esquerda que mostra um corredor ecológico por sobre uma auto-estrada no Canadá.

 

 

Ao encerrar sua apresentação o Professor Maron citou conclusões e fez recomendações para o futuro.